15 de jul. de 2014

Gota d'água


 Meu caro amigo Pedro é um rapaz que vive pensando, e ás vezes esquece-se dos assuntos práticos para viver no mundo da lua. Não que isso seja uma coisa ruim, mas o bicho ta pegando na casa dele e parece que, bom pobre Pedro, nem liga pra isso!

 O maior prazer dele era levar os amigos para sua casa, beber, fumar e debater literatura, porém sua amada, Maria Rosa não gostava nem um pouco, vira e mexe Pedro era convocado á cozinha e podíamos ouvir:

“Esses indecentes vem comer do nosso pão e encher a casa de fumaça, tire-os daqui ou saio eu!”
 Então nossa festinha mudava de endereço, íamos ao bar mais próximo. Sempre pagávamos a conta, Pedro nunca tinha dinheiro, não trabalhava muito, pois achava que conseguia viver com os seus livros e algumas aulas de eventual numa escola do estado. Sempre avisávamos:

“Pedro, ajeita o terno e vá arrumar um emprego... Pedro, não da pra viver com o que se escreve, todo mundo aqui trabalha...”

 Mas não adiantava, Pedro insistia em viver naquela paranóica e doce ilusão de que a vida é feita para se viver e não para ter luxos, o básico estava de bom tamanho... Mas nem isso Pedro conseguia garantir, faltava arroz e feijão, luxo era comer carne!
 Acontece que Maria Rosa, já cansada dessa vida resolveu ela mesma ir atrás de emprego, conseguiu uma vaga de auxiliar administrativa numa empresa grande na Av. Paulista.

 Certo dia estávamos reunidos na casa de Pedro fazendo o que era de costume e então Maria chegou, exausta, arrasada e desiludida e quando viu aquela fumaçada, as garrafas vazias e os filhos com fome os olhos dela encheram-se de lágrimas, não se sabe se eram de tristeza ou de indignação, só sabemos que após aquele dia Pedro saiu de casa, e agora vive uma vida mal vivida, sem amor de esposa ou de filhos, só espera o perdão, o emprego, e os anos de glória, mesmo sem perceber que isso tudo já se foi. 

9 de jul. de 2014

A Boêmia




Conto-lhes de um tempo,
Que até eu queria reviver,

A perfeição, definia-se
Na fumaça do Black dela misturando-se ao meu Minister,
Uma taça de vinho,
E longas noites de amor.

A boêmia... A boêmia,
Um sabor de cereja no batom,
A boêmia... A boêmia,
Um cheiro amentolado no perfume de mulher.

Naquela época ainda havia glória,
Naquele cortiço semi enriquecido do Bexiga,

Lembranças que até hoje guardo na memória,
E apesar da vida miserável,
Da roupa gasta, e da geladeira quase vazia,

Vivíamos a vida
Com muita vontade,

E a felicidade,
Só batia a cada quinzena,
Quando repartíamos a cachaça e pão nosso.

Ah, a boemia... A boemia,
Um sabor de decisões erradas,
A boemia, a boemia,
A luxúria e a necessidade.

 Agora toda vez que passo ali,
Sinto uma dor no peito,
Saudades do que o tempo levou,
Mas esqueceu de apagar,

Hoje o lugar é só mais um bairro,
Devastado, arruinado,
Cheio de poluição,
Mas ainda resta um resquício da era de ouro.

Uma rodinha de samba,
Um pintor falido
E meia dúzia de botecos semilotados.

A boêmia... A boêmia,
Um sabor de ilusão,
A boêmia, a boêmia...
Um sabor de nostalgia!