Primeiramente, um dos poemas do Drummond que mais gosto:
Os Ombros Carregam o Mundo
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
Em vão mulheres batem á porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada espera dos teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo,
Teus ombros suportam o mundo,
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
Retirado de "Sentimento do Mundo" Carlos Drummond de Andrade.
Uma homenagem ao aniversariante:
"C.A.D"
Então poeta, hoje você faria 111 anos.
Pena que você não está aqui pra assistir.
Esses homens não aprenderam nada.
Enquanto você tinha medo dos alemães,
Nós temos medo de nós mesmos.
Sim, os heróis, se entupiram de heroína,
E agora vivemos aqui, em pé de chacina.
Tio Sam continua preparado,
Mas caí a todo instante,
Agora tudo é guerra civil,
Tudo é motivo pra baderna,
No mundo Árabe e aqui no Brasil.
O sentimento do mundo é o mesmo,
Ódio, nas nações exploradas,
Mesquinharia nas nações exploradoras,
A alienação, continua a mesma,
A baixaria, bom, essa evoluiu.
E agora que fazes aniversário,
Passaste despercebido, graças ao feriado americano.
Que a maneira de ter o mundo ao ombro não mude,
Porque agora poeta,
Ele está diferente,
E carrega-lo está sendo uma tarefa para os veteranos centenários.
Agora uma singela homenagem á Lou Reed:
Adeus Lou!
Em um dia perfeito,
Ouvindo a música perfeita,
Ele me ensinou a andar do lado selvagem, Aprendi com ele a tomar cuidado com as "Femme Fatales" de plantão.
Aprendi que toda manhã é uma festa.
E vi que serei seu espelho,
Adeus Lou,
Vá, mas não em silêncio,
Parta em seu caminho,
Mas com uma guitarra na mão,
Adeus Lou,
Vá, te entendo,
Porque eu sei o que é ser um homem cansado,
Um homem exausto, da pele de Vênus.
E um presente de aniversário atrasado ao meu maninho:
Nove
Nem consigo acreditar,
Que aquela coisa pequena, branca,
Que vi á nove anos atras,
Cresceu tão rápido.
Ei, pequeno violinista,
Componha a melodia,
Que me junto a você com a letra, e com o violão,
Continue esse moleque sabido,
Que só orgulha o seu irmão,
Mas que você cresça mais,
Até que nossa camaradagem,
Torne-se boêmia,
Caindo na malandragem,
La se vão os Irmãos Ferreiras,
Com seus instrumentos, lápis papéis e coragem,
Bagunçando o que vai contra nossas ordens,
Melhorando nossa amizade,
Até que chega a idade,
De um dizer adeus ao outro,
Iremos ter nossas casas, famílias,
E que essa união permaneça por todo o sempre.
Para você, pequeno magrelo,
Não deixe morrer essa doce criança que há em você,
Mas amadureça, no tempo certo,
Para um dia contarmos á nossos filhos, depois á nossos netos,
Nossas estripulias, aventuras, brigas, e conciliações.
Lou Reed- Perfect Day
Pela Luz dos Olhos Teus Tom Jobim (letra de Vinicius de Moraes)
Carlos Drummond de Andrade










